quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Três Moças

          
Três moças conversavam caminhando
seguindo à minha frente no passeio
passo certo, controlado,
entretidas, conversando
talvez sobre o amor…
E passeavam sem pressa,
sem olharem em redor,
sem receio que alguém
ouvisse a sua conversa.
E então disse a primeira
à do meio,
mais pequena mas ligeira
no andar, cabelos soltos ao vento,
no que foi acompanhada, confirmada,
pela mais alta, a terceira,
que a cabeça abanava
em sinal de assentimento:
“Tu para seres feliz tens que sofrer antes.”
E após alguns instantes
eu cheguei à conclusão
que de acordo eu estava:
Achei que tinham razão
pois também eu concordava
que um amor se teve espinhos,
se teve dor e persiste
renasce com emoção
e a prova é que existe.
E então…
Se até lágrimas verteu
valeu a pena, valeu…

domingo, 7 de novembro de 2010

Deitada a meu lado

Deitada a meu lado, em sossego,
dormindo descansada,
beijo teus cabelos estendidos
dourados.
Afago o teu rosto
sinto o teu odor
o teu calor.
Beijo os teus olhos,
levemente a tua boca
para não te acordar.
Sinto o bater do coração
e o teu peito saltitando
encosto ao meu rosto
com gosto.
Beijo os teus seios
com ternura,
um,
e outro,
devagar.
Deixo-me estar a sonhar
repousando o pensamento
e a cabeça no teu regaço,
num abraço,
lentamente,
para não te acordar.
Desço o olhar e os lábios,
beijo o teu ventre
com ardor.
Não acordes, meu amor.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Saudades

            João Wilson é um rapazinho negro a quem no ano passado ensinei as primeiras letras e que frequenta agora com regularidade e muito bom aproveitamento a segunda classe do ensino primário, na escola que a Companhia criou em Janeiro de 1962 e mantém na pequena povoação indígena do Quenece, nas imediações de Inhaminga.
            Franzino, de doze anos, tem olhos vivos e irradia grande simpatia que alia a uma extraordinária faculdade de compreensão e inteligência com que a Providência o dotou. Não tem Pai nem Mãe. Esta, nunca a conheceu e o Pai, segundo me contou numa das minhas visitas a sua casa há algum tempo, morreu já lá vão quase três anos. Vive perto da escola, numa pequena encosta, numa simples casa de taipa, muito limpa, rodeada de meia dúzia de palmeiras que, ao sol-pôr, tornam a paisagem tipicamente africana.
Há alguns dias, num dos pequenos intervalos das lides escolares, entretinha-me a vê-lo correr com os seus camaradas, no pequeno terreiro defronte da escola, rindo e brincando como qualquer criança da sua idade. Apesar de franzino é muito vivo e alegre e não há jogo ou brincadeira em que não goste de tomar parte.
No dia anterior houvera distribuição de correio e, quase maquinalmente, meti a mão ao bolso e tornei a ler a carta que recebera na véspera. Uma carta recebida do Continente é sempre motivo de alegria sem par e serve, durante alguns dias, para escape das saudades. Tornei a lê-la. E meditava, pensativo, recordando com saudade a família, a minha terra, os meus amigos, quando junto de mim senti uma voz fresca que me disse:
- O senhor Professor está triste ?
Olhei. Junto de mim estava o João Wilson, olhando-me meio sério, com os olhos numa interrogação. Fitei-o, agradecido por aquelas suas palavras e apenas lhe disse:
- Não, não estou triste. São saudades…
- Que são saudades, senhor Professor ?
Era difícil responder. As saudades sentimo-las e não sabemos explicar. Que responder ?
- Quando morreu o teu Pai ?
- Há três anos.
- Tu gostavas dele, não é verdade ? Muito ?
- Sim, gostava muito. Tive muita pena e chorei quando ele morreu.
- Gostavas que ele estivesse agora aqui contigo ?
- Sim, senhor Professor.
- Olha, João, isso são saudades.
- Mas o Pai do senhor Professor morreu ?
- Não, mas está muito longe. O meu Pai, a minha Mãe, a minha família, os meus amigos…
- Mas eu também sou amigo do senhor Professor…
- Eu sei, João, e quando eu voltar para o Continente vou ter muitas saudades tuas, do Chano, do Jossa e de todos vós.
- Eu também vou ter muitas saudades, senhor Professor.
Passei-lhe o braço pelo ombro e entramos na escola. O recreio havia terminado.

                                                                       Inhaminga, 25 de Abril de 1963.


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Recupero este texto escrito há quase cinquenta anos e “sinto saudades”, da escola do Quenece, dos muitos alunos a quem ensinei as primeiras letras, dos torneios de futebol que organizava entre as várias classes (no total eram cerca de cento e quarenta alunos…), das dificuldades que sentia para compreender as palavras do dialecto local, os seus costumes, os seus anseios, tanta e tanta coisa. Concluo que o passado é muito importante e está sempre presente nas nossas vidas.
E é bom ter recordações, pois o passado existe sempre e este momento em que estou a registar estes pensamentos já será passado quando o voltar a ler.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Globalização

            Muitas vezes dou comigo a pensar no modo como as coisas agora se processam no dia-a-dia das pessoas, parece que rotineiramente mas sempre com as “novidades” indicadas ou aconselhadas, controladamente, por enquanto até ordeiramente, como um grande rebanho dirigido ou orientado por algo desconhecido ou distante, mas com serviçais ambiciosos que tudo orientam, tudo definem e parametrizam, friamente, sem aviso. Quase que estamos impedidos de fazer ou decidir conforme o nosso gosto, sem pressão, sem indicação ou aconselhamento, pois tudo nos é sugerido ou imposto, em pacote, conforme mandam as regras do mercado. Globalmente. Abandona-se o indivíduo e aparece a multidão.

         Uns dizem que é a modernidade, a tecnologia, a inovação, a globalização económica e cultural entre os diversos países, outros falam nos mercados, na pressão financeira, no desaparecimento de muitas barreiras físicas e culturais e sugerir algo pessoal ou diferente é remar contra a corrente, é conservadorismo, é impróprio de “modernidade”. Tudo deve funcionar globalmente, grandes grupos, grandes superfícies, grandes bancos, grandes empresas, grandes… insensibilidades… E do que deveria resultar benefício para o “indivíduo” passa a reverter em mais lucros para esses gigantes que dominam os mercados.
         Não se fala com pessoas mas com “máquinas”, e mesmo ao telefone surge quase sempre uma voz de call center, que não sabemos quem é, que a seguir nos dá uma música durante largos minutos, frequentemente nos orienta depois através de números (se deseja… marque, se deseja… marque, se deseja… marque…) e por fim nunca pode esclarecer completamente o que desejamos saber e acaba por nos referir “tomamos nota e oportunamente será contactado”.
         Sim, somos contactados muitas vezes sem o desejar, a qualquer hora do dia, às vezes até da noite, porque o nosso nome ou número consta de uma infinidade de listas que os “grandes grupos” trocam entre si e que “amavelmente” nos vêm sugerir isto e aquilo em que nem sequer pensávamos e que assim, sub-repticiamente, nos fica a raiar na memória.
         Somos verdadeiramente inundados com supérflua publicidade e apesar de permanentemente “convidados” a aquisições desnecessárias, estamos limitados a regras, normas e procedimentos impostos pelos grandes grupos financeiros ou económicos, num regime de “standardização” em que deixamos de ser pessoas para passarmos a ser números. Passa a vigorar o número de senha que nos saiu na maquineta…
         Entretanto no cerne da questão estão os “orientadores” que comandam toda esta movimentação global com toda a sua corte de serviçais ambiciosos. E, uma vez ou outra, quando desprevenidamente escorregam… no escândalo, na corrupção, no compadrio, na desonestidade, lá vem a público um ou outro caso que é notícia de primeira página em grandes parangonas mas que logo desaparece, quase sem deixar rasto.
         Afinal, que liberdade nos trouxe a globalização?